A idade chegando e eu, talvez, contribuindo pro futuro

Salve, salve, pessoal!

Faz tempo que não escrevo, mas resolvi quebrar o silêncio no meio de outro projeto enorme (com um prazo não tão grande) para incluir o questionário que respondi da Nathalia Ariadne.

A Nathalia é aluna do curso de Tradutor/Intérprete aqui na FMU de São Paulo e chegou a mim pela Amandoca, minha amiga revisora e salvadora da pátria nas horas vagas (obrigado pela ajuda com a tradução daquelas poemas!). Como aconteceu comigo durante a graduação, um dos professores da Nathalia pediu que ela entregasse um questionário a um tradutor sobre a vida pós-faculdade no mercado de trabalho.

Sinceramente, fico feliz por minha experiência talvez contribuir para o crescimento de outro profissional. É uma sensação que, até hoje, só experimentei quando conversei com os alunos da Ana Julia ao falar sobre localização de jogos: sair da posição de aluno e transmitir um pouco do que você sabe.

Como me senti ao responder um questionário: um senhorzinho bonito e sorridente!
Como me senti ao responder um questionário: um senhorzinho bonito e sorridente!

Sem mais delongas, cá está minha pequena contribuição ao trabalho da Nathalia, que espero que possa também ajudar outros novos profissionais.

1- Apresente-se e conte um pouco sobre você

Meu nome é Thiago, tenho 28 anos e sou tradutor do par inglês-português (já trabalhei com espanhol, mas só inglês, no momento). Comecei a trabalhar como tradutor numa agência de tradução aos 20 e, desde então, nunca mais larguei a profissão.
Trabalhei cerca de 5 anos como tradutor e revisor interno, tendo passado por um grande escritório de tradução e uma multinacional de auditoria.
De 2011 pra cá, trabalho como freelancer e/ou pessoa jurídica (PJ) para meus próprios clientes.

2 – Você estudou fora do Brasil?

Nunca. E nem acho que seja essencial, contanto que o tradutor consiga adquirir o nível de proficiência necessário.

3 – Fez curso superior ou se especializou para se tornar tradutor?

Cursei o bacharelado de Tradutor e Intérprete na USJT. Desde então, faço cursos conforme a necessidade do mercado e/ou cursos específicos em áreas que gostaria de atuar.
Por exemplo, fiz cursos de tradução jurídica na ESA OAB, cursos de escrita criativa, cursos de gramática. Diversos cursos on-line. Enfim, todos os caminhos levam a Roma.

4 – Quais as maiores dificuldades ou barreiras que encontrou/encontra na profissão?

Principalmente o desconhecimento, seja dos profissionais, seja dos clientes. Isso acarreta os outros problemas de que ouvimos falar, como a desvalorização do trabalho.
Se os clientes conhecessem o nível de dificuldade e de especialização necessários para traduzir determinados materiais, nenhum deles diria que “faria se tivesse tempo” ou que seu sobrinho que abraçou o Mickey e o Pateta na Disney está apto a exercer o ofício.

5 – Trabalha em outra área que não seja tradução?

Não. Dei um semestre de aulas individuais pra um aluno a pedido de um colega de faculdade que abriu uma escola de inglês. O aluno em questão precisava de aulas de conversação e aprender terminologia de negócios. Foi legal pra saber que não é a minha praia.

6 – Qual área de tradução você mais atua (jurídica, médica, midiática, interpretação, legendagem, etc.)?

Acredito que se enquadre em midiática. Meu trabalho principal é a localização de jogos e a tradução de conteúdo criativo, mas também traduzo para grandes empresas conteúdo corporativo.

7 – Seu trabalho como tradutor é fixo ou freelancer?

Freelancer, mas tenho PJ porque é uma necessidade real para se atuar no mercado nacional. Dificilmente uma empresa contrataria um tradutor como autônomo (porque a carga tributária é infinitamente maior, além dos problemas com possíveis processos trabalhistas).

8 – Que qualidades deve ter um bom tradutor?

Ânsia pelo conhecimento. Inúmeros e múltiplos. Curiosidade para aprender tudo que precisa e não sabe e não ter preguiça de pesquisar. Além disso, é essencial ter automotivação, pois não é sempre que receberá parabéns por um bom trabalho ou por perder uma festa familiar para cumprir um prazo. E estar preparado para as adversidades, como as épocas de vacas magras e o excesso de trabalho.

9 – O que é uma boa tradução?

Depende. Do ponto de vista do mercado, é aquela que atende o fim a que se designa, ao mesmo tempo, respeitando as peculiaridades do texto de partida (que nem sempre é um mar de rosas). Sem contar que nem sempre é função do tradutor não ser traidor, pois ele precisa, sim, transmitir a mensagem que o cliente precisa passar.

10 – O que você aconselha a um tradutor iniciante para ser bem sucedido na profissão?

Um dos problemas de quem entra no mercado de trabalho saindo da faculdade é não ter nenhuma noção da realidade desse mesmo mercado. Se tudo correr bem, a faculdade vai te munir do conhecimento necessário para ser uma boa tradutora, mas não necessariamente te vai ensinar a ser uma boa empreendedora e a sobreviver no mercado. Para resolver isso:

  • informe-se.

Sugiro 2 leituras obrigatórias: Fidus Interpres (acho que tem num site chamado Clube de Autores, que talvez tenha mudado de nome para O Guia do Tradutor, do tradutor Fábio Said). Ele é incrível e quisera eu tê-lo lido antes de sair da faculdade. Outro essencial é o How to succeed as a freelance translator, da Corinee McKay. Ela escreve o blogue Thoughts on Translation, também excelente. Outro blogue excelente é o “Tradutor Profissional”, do brasileiro Danilo Nogueira. Ele conta muito de sua vida lá, mas também fala do mercado de trabalho. Há inúmeros outros blogues de tradutores, não será difícil encontrar algum muito bacana pra esmiuçar.

  • aprenda sobre tecnologia

Se não for trabalhar com tradução editorial (aceite: a proporção de tradutores que trabalham com o mercado editorial não passa de 10%), aprenda a usar as CAT tools. Caso ainda não saiba, as CAT tools (ferramentas de tradução assistida) não são automáticas, elas funcionam de acordo com o seu uso. É diferente de MT (Machine Translation), tipo o Google Translate. Numa CAT, você armazena suas traduções atuais e otimiza as futuras quando houver repetições, além de muitas outras funções que só te beneficiam se você aprender a usar. Sei usar bem 2, sei usar 2 meia-boca e tenho 5. As CAT são incríveis e aprender a usá-las não separa os bons dos maus, mas, talvez, os sobreviventes e os esquecidos daqui uns anos. Conheço quem viva sem usá-las, mas você terá mais oportunidades se as dominar. Além disso, o mercado aponta para um uso cada vez maior delas. Há uma gratuita chamada Omega T.

Caso trabalhe com outro tipo de mercado, como o da legendagem e tradução para dublagem, por exemplo, não posso oferecer muitas informações práticas. Apenas sugiro que aprenda a usar o Subtitle Workshop, que é gratuito e ouço ainda ser a primeira opção desses profissionais.
Se atuar como intérprete, por morar em São Paulo, talvez a melhor opção seja fazer a especialização da PUC.

E, espero não precisar dizer, mas é bom você saber usar o computador bem. Se não souber, comece pra ontem. Eu penei no começo, mas agora já consigo fazer várias coisas. Pense como um investimento. Do contrário, o preço da visita de um técnico de informática não é baratinho (passei pela experiência uns tempos atrás. Resultado: R$ 180).

  • aposte no famigerado networking

Não sei em que ponto da graduação você está, mas talvez seja um bom momento para começar a dar as caras e acompanhar grupos de tradutores. Participe de eventos profissionais, conecte-se a profissionais e participe de grupos de discussão. Sugiro o “Tradutores e Interpretes”, mas há um sem-fim de grupos. Caso entre nesse que indiquei, confira as discussões prévias nos links “Discussões importantes”.

  • conheça sua língua

Espero não precisar dizer isso, mas, por favor, eu imploro, não seja aquele tradutor que não conhece o próprio idioma, não é legal.

Nathalia, se não falei antes, não se esqueça da importância de sempre se atualizar: cursos, oficinas e muito mais! Ficar parado, nunca!

Até a próxima!

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